Biometria, a senha do corpo Fonte: Jornal do Brasil, 05/05/2000
Não se assuste, mas suas caracterÍsticas pessoais, como voz, íris, retina, impressão digital, escrita e geografia da face e da palma da mão vão substituir seus cartões eletrônicos e suas senhas de acesso.
A biometria - tecnologia de autenticação de indivíduos - está saindo da ficção e entrando nos planos das empresas de segurança e informática. Mas o que a biometria tem a ver com o cidadão comum? A resposta é enfática: tudo! Mesmo que ainda não esteja acessível comercialmente devido a seu elevado custo, as aplicações são incontáveis e, indiretamente, afetam a vida de todo mundo.
A tecnologia pode ser usada para controlar o acesso a prédios comerciais, caixas eletrônicos, páginas na internet, para fazer compras online, para reconhecimento de indivíduos procurados pela polícia, na telemedicina e na proteção a residências.
Hoje, a biometria mais empregada é a leitura de impressão digital, já em uso, por exemplo, nas fronteiras de Israel para reconhecimento de terroristas e em caixas eletrônicos bancários.
No Aeroporto Internacional JFK, em Nova Iorque, viajantes cadastrados não precisam mais de passagens aéreas ou documentos. Depois de fazer reserva pela internet, podem chegar tranqüilos ao aeroporto e provam quem são e para onde vão apenas pressionando o dedo num leitor de digitais.
Disfarce impossível - Especialistas concordam, no entanto, em que o reconhecimento de digitais ainda não é 100% seguro, já que o índice de rejeição ou aceitação é bem menor do que o esperado. Por isso, o mercado já está recebendo produtos que fazem identificação e autenticação pela íris. A ciência comprova: cada íris é única, e se diferencia até mesmo de seu par. É impossível, assim, que uma pessoa se faça passar por outra, como bem tentou o personagem do ator Ethan Hawke no filme Gattaca, experiência genética, baseado no livro de Aldous Huxley Admirável mundo novo. Nele, Hawke - nascido "naturalmente" e portador de pequenos "defeitos", como a miopia - quer ser astronauta, função só permitida aos geneticamente perfeitos. Para alcançar seu objetivo, ele adota a identidade de um nadador que um acidente tirou das raias. O disfarce incluía lentes de contato corretivas, partes das impressões digitais com amostras de sangue para passar pelo leitor óptico e resquícios de cabelo, para comprovação do DNA. Todos os sensores, mesmo os de impressões digitais, têm dispositivos que analisam se a parte do corpo escaneada está viva ou morta.
A afirmação é avalizada pelo geneticista Sérgio Penna, professor da Universidade Federal de Minas Gerais e autor da tese A origem do brasileiro. Segundo ele, a identificação humana pela biométrica é bastante confiável. "É perfeita e pode ser aplicada sem problemas, para provar que ninguém é igual a ninguém", confirma. "A ciência comprovou que o fundo de retina, a íris e a impressão digital de todas as pessoas são diferentes." Penna, que trabalha com reconhecimento de indivíduos por código genético, acrescenta que nem gêmeos idênticos têm as mesmas características. "Eles podem ter a mesma impressão digital de DNA, mas a marca do dedo, a retina e a íris são diferentes."
A aplicação dessa tecnologia não é mais um script hollywoodiano. A substituição de senhas e cartões pela biométrica foi prevista pelas grandes empresas há algum tempo. Em 1997, foi criado um consórcio para desenvolvimento de equipamentos e softwares que tornassem sua aplicação possível. O BioApi - que engloba, entre outras, IBM, Microsoft, Compaq, Hewlett-Packard, Unisys e Intel Corporation - tem a missão de integrar soluções que tornem aplicativos compatíveis com a biometria.
Eficiência garantida - Em 1998, a International Computer Security Association deu o empurrão que faltava. A entidade, que testa produtos de segurança, realizou diversas avaliações e aprovou seis produtos que usavam a tecnologia. A partir daí, as iniciativas não pararam mais, diminuindo a sobrevida dos cartões e das senhas. Os dois, aliás, são, para os especialistas, inimigos das políticas de segurança.
"O esquema de senhas já nasceu morto e continua errado e antiquado", considera Andre Diamand, diretor da Future Security, empresa de segurança do Rio. Para ele, a biométrica é a solução de autenticação mais eficiente criada até hoje. "Senhas podem ser emprestadas, roubadas, falsificadas, mas ninguém vai emprestar o dedo ou os olhos", analisa.
A opinião é compartilhada por André Luiz Zambrini, desenvolvedor de programas de marketing para a América Latina da Computer Associates. Para ele, o cartão é uma tecnologia falida. "O smartcard, cartão inteligente que contém os principais dados de uma pessoa, é o primeiro passo para a renovação, mas o ápice será a utilização, em conjunto, da biométrica digital e facial", prevê. André se refere a dois tipos de biométrica nas quais a CA já atua - a leitura de impressões digitais e anatomia do rosto. As duas já estão sendo implementadas em muitos países, em parceria com a empresa americana Visionics - www.visionics.com.