Mapear usuários virou fonte de renda Fonte: Estadão, 10/05/2004
Dados são coletados e vendidos pelas empresas que distribuem software.E o usuário consente
Depois de anos se preocupando com vírus e trojans, os usuários têm mais uma categoria de intrusos para se preocupar: os spywares.
O consultor Rafael Coninck Teigao conta que um grande escritório de advocacia em Curitiba estava reclamando de lentidão nos computadores e das muitas pop-ups que apareciam na tela. O problema? Spywares. "Nem mesmo o IE estava funcionando, pois sempre que algum site era chamado, o navegador era direcionado para um site de propaganda."
Segundo Teigao, com a verificação de um programa anti-spyware (xcleaner), foram encontrados entre 45 e 68 arquivos intrusos instalados em todos os PCs. "Quando a limpeza terminou, alguns funcionários disseram que parecia que o computador estava com um processador mais rápido, tão visível era a diferença de performance."
Não bastasse a violação de privacidade, a maior parte desses programas roda silenciosamente em segundo plano, muitas vezes travando o PC, deixando-o lerdo ou simplesmente consumindo processamento.
A empresa de segurança digital PestPatrol monitora centenas de computadores e organiza, em tempo real, uma lista com os aplicativos "espiões" mais distribuídos e instalados ao redor do mundo. A companhia Claria está em primeiro lugar. Ela é mais conhecida por distribuir um spyware chamado Gator, instalado em pelo menos 38 milhões de PCs, segundo dados da própria empresa, que surgiu em 1998. O Gator vem embutido em praticamente todos os programas peer-to-peer - estilo KaZaA - e não é muito bem-visto pelas organizações defensoras da privacidade online.
"Esta empresa simplesmente tem mapeado o padrão de consumo de todos esses usuários. É uma base de dados que vale ouro e certamente está sendo convertida em ouro", diz o consultor em segurança André Diamand.
A Claria recentemente tem usado a ameaça com processos para impedir as pessoas de chamarem o seu produto de "spyware". Os programas de segurança estão classificando-a simplesmente como "adware". A empresa reivindica o direito de rastrear os hábitos do internauta porque ele próprio dá permissão para instalar o programa.
"O usuário precisa parar com este hábito de responder sim a qualquer tela que apareça na sua frente", alerta Diamand.
Ações - Mas o que a Claria faz exatamente? A companhia tem três divisões - Gain Publishing, Gain Network e Feedback Research -, todas relacionadas com marketing de relacionamento, pesquisa de mercado e venda de anúncios de acordo com o perfil dos "consumidores". Além do Gator, ela é dona de outros produtos. O Offer Companion, por exemplo, serviria para efetuar comparações de preços entre diversos fornecedores de um produto. Porém ele também acompanha a navegação do usuário e exibe propagandas em pop-up, aquelas janelinhas que se abrem inesperadamente na tela.
O último lançamento da Claria foi o DashBar (http://www.dashbar.com), uma barra de ferramentas extras para o Internet Explorer. O problema: utilizando o sistema de buscas da barra, a página retorna vários links de sites que patrocinam o serviço, e não necessariamente endereços que tenham a ver com o assunto pesquisado. "Como pode uma empresa oferecer ao mesmo tempo utilitários aos PCs e supostamente roubar informações do internauta?", questiona André Diamand.
Em segundo lugar na lista de spywares mais populares está o Hotbar e sua empresa de mesmo nome: Hotbar, Inc. As meninas são as maiores vítimas desta praga, pois trata-se de um freeware que permite a inserção de carinhas emotivas, skins, papéis de parede e outros penduricalhos em e-mails e no layout do browser. A irritação começa dias depois da instalação. O Outlook, integrado ao programa, pode travar por incompatibilidade e o soft não tem arquivo de desinstalação.
E nem adianta tentar deletá-lo manualmente. Os arquivos com a extensão .DLL (que tem poder de alterar as configurações do Windows) continuarão no sistema. Quem usa versões antigas do navegador ainda sofre outro revés: o HotBar se auto-instala simplesmente pelo fato de o usuário visitar determinados sites "parceiros" do programa.
"Esses spywares exploram vulnerabilidades antigas do Internet Explorer e do Outlook Express para serem instalados automaticamente. Por isso é tão importante usar a última versão do navegador, teoricamente mais segura", explica Rafael Coninck Teigao, diretor de tecnologia da SafeCore, em Curitiba.
Marketing - Outra empresa que recorre ao artifício de alterar páginas alheias criando links indevidos é a eZula. Seu produto principal chama-se TopText. Ele realça com uma tarja amarela certas palavras-chave, quando você visita uma página.
Ao clicar nelas, o internauta é desviado para a página de um dos clientes da eZula, em geral, um concorrente da empresa cujo site estava sendo visitado.
Antiético? Bem, são os próprios anunciantes que compram palavras ou frases, que custam entre US$ 0,30 e US$ 1 por clique. Empresas como Cydoor e eZula chegam ainda a pagar entre US$ 0,10 e US$ 0,20 por download do seu aplicativo.
Multiplicados por milhões de downloads, esses centavos começam a valer algo no faturamento do KaZaA, Morpheus, CuteFTP, Download Accelerator e de todas as empresas que distribuem programas grátis com spyware. (B.V.F.)