Andre Diamand dá dicas de segurança no JB Fonte: JB Online, 18/03/2005
Acusado
de ser líder de uma quadrilha que lucrou mais de R$ 50 milhões nos
últimos dois anos com fraudes bancárias pela internet, Valdir Paulo de
Almeida foi preso às 20h30 de quarta-feira em um flat do condomínio
Barramares, na Barra da Tijuca.
O paulistano, de 42 anos, é acusado de liderar 17 estelionatários que
cometiam crimes eletrônicos, usando contas de correntistas de grandes
bancos do país, sobretudo do Banco do Brasil e da Caixa Econômica
Federal, nos quais 60% das vítimas tinham conta. Segundo a Polícia
Federal, mais de 1 milhão de pessoas podem ter sido lesadas.
Valdir é o terceiro membro da quadrilha a ser preso, após três meses de
buscas. Segundo o delegado-chefe da Delegacia de Crimes Contra o
Patrimônio de Florianópolis, Raimundo Barbosa, Valdir tinha prisão
preventiva expedida em Florianópolis, como resultado da Operação
Net-Livre, desdobramento da Cavalo de Tróia, iniciada em 2003.
Os outros 15 integrantes do bando estão foragidos, provavelmente em São
Paulo, onde fica o centro de operações do grupo. Policiais,
funcionários dos bancos e públicos, além de laranjas participam da
quadrilha. O esquema pode contar com a participação de menores. O
delegado acredita que o restante do bando será preso em breve.
Os fraudadores recebiam dinheiro de pessoas interessadas em quitar
débitos por menor valor. Os principais clientes tinham dívidas em
empresas financeiras ou no Serviço de Proteção ao Crédito e pagavam
metade ou dois terços das contas aos estelionatários. Os criminosos iam
a cybercafés, para despistar a polícia, e usavam contas de pessoas que
tinham seus dados roubados pela internet para fazer os pagamentos.
A polícia encontrou centenas de boletos a serem pagos. Segundo o
delegado, as pessoas que usavam o serviço também podem ser indiciadas.
Foram encontrados ainda CDs com números de contas e senhas, documentos,
dois celulares e dois aparelhos Nextel.
O novo golpe era mais lucrativo do que o que já vinha sendo executado -
transferência de dinheiro de conta corrente hackeada para outra, de um
laranja, com o posterior saque do valor em um caixa eletrônico
- No novo golpe ele podia pagar de uma vez R$ 2 mil em boleto pela
internet, enquanto, no golpe anterior, ele tinha um limite de saque que
geralmente não passava de R$ 400 e era rapidamente rastreado.
Valdir teria dois aviões, 20 veículos e vários imóveis. Até agora só
foram localizados quatro carros: um Audi, uma BMW, um Alfa-Romeo e um
Fox, da Volkswagen. O delegado considera a quadrilha de Valdir a mais
perigosa formada por hackers, já descoberta no país.
- Operavam tráfico de drogas, roubo, receptação de carga, roubo de carros. E o final é a lavagem de dinheiro.
Valdir foi levado ontem de avião para Florianópolis, onde ficará preso.
Ele deve responder por estelionato, formação de quadrilha e violação de
segredo bancário.
Falsos anúncios por e-mail
A
Polícia Federal explicou que o grupo recrutava pessoas colocando
anúncios no jornal e internet, oferecendo cerca de R$ 5 mil de
remuneração. Essas pessoas enviavam e-mails com propagandas de produtos
como remédios contra impotência sexual e podutos eróticos.
Nas mensagens, além dos anúncios, vinha um programa ''espião'', que
copiava todas as informações contidas no computador do usuário. Desta
forma, a quadrilha conseguia obter o número de contas e senhas de
pessoas que fazem transações bancárias pela internet e com a informação
na mão, podiam realizar o resto do esquema.
O diretor-geral da empresa de segurança Future Security, André Diamand,
explica que essa é uma das formas mais tradicionais de roubar dados
bancários pela internet.
Além dela, a outra forma usada normalmente é enviar um e-mail
semelhante a um do banco pedindo o recadastramento do usuário pela
internet. Clicando no e-mail, chega-se a uma página muito parecida com
a do banco onde serão pedidos vários dados do correntistas. Na verdade
a página é falsa e o hacker consegue aí os dados necessários para
cometer as fraudes.
- O hacker manda este e-mail para 5 milhões de pessoas. Se 20%
responder, ele consegue 1 milhão de contas e senhas. São duas técnicas
diferentes, mas ambas buscam os dados dos usuários. Pela dimensão da
fraude, ele deve ter usado as duas técnicas.
Brasil é paraíso de invasores
O
Brasil é considerado um paraíso para hackers. Em vez de coqueiros,
praia e sol, é uma legislação defasada - de 1988, muito antes de a
maioria dos brasileiros ouvir falar em internet - que atrai os
criminosos e justifica o resultado de uma pesquisa divulgada no fim do
ano passado pela Polícia Federal: oito em cada 10 hackers ativos no
mundo vivem na ''terra do samba e do pandeiro''.
Pela lei brasileira, um hacker não pode ser preso só porque invadiu um
site ou espalhou algum vírus, a não ser que essas ações tenham
comprovadamente, resultado num crime.
Foi o que aconteceu a um estudante de 19 anos de Mato Grosso do Sul que
desviou milhões de reais de correntistas brasileiros e estrangeiros. Em
2002, Guilherme Amorim Oliveira Alves, de seu laptop, violou sites de
bancos nacionais e administradoras de cartões de crédito. Ano passado,
foi punido com seis anos e quatro meses de prisão, na primeira
condenação da Justiça brasileira a alguém que lesou pessoas e bancos
pela internet.
Guilherme já havia sido preso e solto duas vezes, beneficiado por um
habeas-corpus. A primeira vez foi em Campo Grande, suspeito de aplicar
golpe de US$ 12 mil num banco nacional. Em seu notebook, havia dados de
3.500 clientes de cartões de crédito. Em 2003, ele foi preso em
Petrópolis, acusado de clonar sites de instituições bancárias do
Brasil, da Coréia, do Peru e dos Estados Unidos e aplicar golpes.
Em outubro do ano passado, a PF prendeu outra quadrilha que desviou R$
240 milhões de bancos do país pela internet. Foram 80 prisões no Pará,
Tocantins, Maranhão e Ceará. O bando encomendou programas de computador
para capturar senhas e desviar dinheiro.
Em fevereiro deste ano, foram presos outros quatro estelionatários
cibernéticos que roubaram R$ 10 milhões. A quadrilha invadiu anos, mais
de 200 contas bancárias no Rio, São Paulo, Distrito Federal, Minas
Gerais, Goiás e Ceará. O grupo subornava funcionários dos bancos para
acessar senhas.
Dicas de Segurança
De
acordo com o diretor-geral da empresa de segurança Future Security,
André Diamand, realizar qualquer transação pela internet requer muitos
cuidados. Sobretudo com o e-mail. André garante que quase todas as
formas de fraude começam pelas mensagens.
Os cinco mandamentos:
1. Proteger o micro Antes de tudo, é fundamental o uso de
três programas, de marcas reconhecidas, em qualquer computador:
anti-virus, firewall de estação e anti-espião. Tão importante quanto
instalá-los é mantê-los atualizados.
2. Só usar o próprio micro Nunca entrar em sites de trocas de informações importantes em outro lugar que não seja seu próprio micro.
3. Não abrir anexos Leia os e-mails, mas não baixe os
arquivos anexados, sobretudo os com terminação .exe, .com, .sys e .pif.
Nunca os execute, nem que tenham sido enviados por alguém muito
próximo. Muitas vezes eles foram infectados por um vírus e o e-mail é
enviado sem que eles saibam.
4. Sites em e-mail É necessário muito cuidado com e-mails que tenham sites dentro. De preferência não acessar através do link.
5. Aprender a dizer não Segundo André Diamand, essa talvez
seja a dica mais importante: muitos vírus vêm por sites, e o usuário
tem que consentir em baixar os arquivos. Geralmente surgem perguntas na
tela e o recomendável é sempre clicar na palavra não.